Investir em Renda Fixa ainda vale a pena?

Se você ainda está dando seus primeiros passos no mundo dos investimentos, provavelmente deve ter ouvido alguém dizer que investir em renda fixa não é mais um bom negócio, ou que ela está longe de render o que rendia há alguns anos atrás. Embora os retornos atuais, de fato, não sejam tão altos, a renda fixa continua sendo um dos pilares para ter sucesso nos seus investimentos. Ao mesmo tempo, com a perspectiva de um novo ciclo de altas na taxa básica de juros, a Selic, esses investimentos tendem a se tornarem mais atraentes.

Por isso, nesse texto, vamos explicar para você como funcionam e para que servem os investimentos em renda fixa, o que está por trás da ideia de que ela não é mais atraente e por que as coisas são bem mais complicadas do que isso. Vamos lá?

O que é renda fixa?

Quando você investe em renda fixa, o que você está fazendo é emprestar dinheiro para alguém ou alguma instituição, que lhe pagará um retorno que é fixado no momento do acordo. É por essa razão que muitos fundos de investimento em renda fixa são conhecidos, também, como fundos de crédito privado, porque eles irão oferecer crédito (empréstimo) para outros agentes do mercado, como empresas ou outras instituições.

O que você precisa entender é que, no geral, quanto mais arriscado for esse empréstimo, maior será o juro cobrado, justamente para compensar o risco que está sendo tomado. Por outro lado, taxas muito altas podem se tornar insustentáveis para quem toma o empréstimo, o que pode levar ao popular “calote”. É importante entender essa questão, porque ao contrário do que se pensa, existem operações em renda fixa que chegam a oferecer, por exemplo, 40% ao ano, embora o risco seja bem mais alto.

Ao realizar um investimento em renda fixa, estaremos sempre fazendo isso para um governo (que pode ser do Brasil ou de outro país), que no caso nos dá um título público, ou uma entidade privada, que dá origem a um título privado. Assim como as empresas, governos precisam de dinheiro para financiarem sua estrutura e arcar com os serviços que oferece a população, tais como estradas, saúde pública, educação pública, saneamento, etc.

É por essa razão que o mecanismo para compra de títulos federais por pessoas físicas se chama Tesouro Direto, porque estamos fazendo um investimento direto no Tesouro Nacional, que é como se fosse a conta de banco do nosso país. O mesmo acontece, por exemplo, quando compramos títulos do Tesouro dos EUA, que é considerado o mais seguro do mundo contra calotes, visto que se trata da maior e mais rica economia do planeta nesse momento.

Justamente por serem considerada a instituição mais confiável dentro de uma economia, as taxas de juros oferecidas pelos governos servem como a base para todos os outros, isto é, representam a taxa básica de juros. Pense bem: se o governo é a instituição com maior poder de garantia de pagamento da dívida, inclusive sendo a única instituição com poder de imprimir dinheiro, todas as outras precisam pagar, no mínimo, esse mesmo valor, pois o risco de calote, mesmo que muitíssimo parecido, será maior.

Agora que entendemos o que é essa taxa básica de juros, podemos dar a ela um nome próprio, que no Brasil se chama Selic – essa mesma que vemos em portais de notícias, reportagens, sites de corretoras, etc. Uma outra taxa importante é aquela praticada entre bancos, durante o prazo de um dia, e que é baseada na Selic: trata-se do CDI ou taxa DI, que em termos práticos são a mesma coisa: Certificado de Depósito Interbancário e Taxa de Depósito Interbancário.

Como bancos são a segunda instituição mais confiável e esses empréstimos servem apenas para fechamento de caixa ao fim de cada dia de funcionamento, esses valores são muito próximos da Selic, geralmente um pouco mais baixos devido a sua baixíssima duração. Como podemos ver então, a rentabilidade dos investimentos de renda fixa está atrelada a taxa básica de juros, que é definida por representantes do Governo Federal e do Banco Central, que formam o Comitê Monetário Nacional (CMN).

 

Quanto rende a renda fixa hoje?

Atualmente (16/03/2021), a Selic está em torno de 2% ao ano, com o CDI um pouco abaixo disso, o que significa que a base da renda fixa está bem baixa – há alguns anos atrás, chegou a uma máxima de 14% a.a. Entretanto, como disse, existem empréstimos mais ou menos arriscados: um empréstimo para um banco médio pode render, digamos, 150% do CDI. Quer dizer: na chegada do vencimento, você terá ganho 100% da oscilação do CDI mais 50%.

Em sites de empréstimo direto, popularmente conhecido como p2p lending ou empréstimo peer-to-peer, você consegue taxas acima de 40% ao ano, embora muito mais arriscados. Entretanto, é importante lembrar que bancos fazem empréstimos a taxas ainda mais altas, assim como empresas de cartão de crédito, que facilmente cobram juros de 120% a 180% ao ano.

 

A importância da renda fixa

O que você precisa entender sobre a renda fixa é que, apesar de não oferecer um rendimento de saltar os olhos na maior parte dos casos (títulos públicos e/ou títulos privados de baixo risco), ela nos oferece investimentos que são altamente líquidos, seguros e estáveis. Portanto, cumprem a importante função de formarem nossa reserva de emergência: não temos risco de grandes perdas a curto ou longo prazo, podemos convertê-los em dinheiro rapidamente e corremos pouquíssimo risco de tomarmos um calote.

Além disso, títulos de renda fixa servem para reduzir a volatilidade de uma carteira de investimentos. Por exemplo, se você tem um viés mais conservador, pode não se sentir confortável tendo muito dinheiro investido em ações, mas ao mesmo tempo, gostaria de ter um pouco de exposição a renda variável. Ao concentrar, digamos, 80% da carteira em renda fixa, mesmo que os outros 20% oscilem muito, não haverá um impacto tão grande no resultado final e a média dos retornos mensais totais não sofrerá tanto com os desvios, para cima ou para baixo.

 

Renda fixa não vale mais a pena?

Como você pode ver, nossos investimentos em renda fixa são muito importantes não apenas para o funcionamento da economia como um todo, financiando empresas e governos, como são importantes para manter a segurança de nossas carteiras, permitir nos expormos de forma mais controlada aos riscos da renda variável, ou até mesmo para buscarmos retornos agressivos em modalidades menos tradicionais de empréstimos. Entretanto, por que vemos uma certa insistência para que as pessoas saiam da renda fixa e foquem na renda variável?

Bom, como você acabará descobrindo ao longo da sua jornada de investimentos, em muitas ocasiões as corretoras e agências de investimento colocarão seu interesse em segundo plano, embora raramente de forma explícita. No caso da corretora, ela ganha com serviços de corretagem, taxas de administração e bonificações; agentes autônomos, por sua vez, recebem comissões repassadas pelas corretoras que representam (“autônomos” aqui significa que trabalham para elas por conta própria) e não podem cobrar pelos seus serviços.

Como você deve ter imaginado, produtos de renda variável oferecem retornos muito mais atraentes tanto para corretoras quanto para seus/as agentes autônomos, precisamente por serem produtos mais arriscados. Entretanto, nos dois casos, o retorno positivo ou negativo do seu investimento não afeta os ganhos de nenhuma dessas outras partes, o que na prática significa que simplesmente estão transferindo todo o risco para você, investidor/a – assim, todo mundo sai ganhando, menos você.

Que fique claro que, apesar de estarmos generalizando o comportamento da indústria financeira nacional, existem muitos/as profissionais que realmente irão se comprometer a colocar seu interesse acima dos ganhos que eventualmente possam ter. Entretanto, ficar de olho é essencial, pois se trata de uma área que dá muito valor ao lucro, sem muita preocupação com o seu bem-estar financeiro ou mental (ansiedade, estresse, etc., causados por investimentos que não são adequados ao seu perfil, objetivo, momento de vida, etc.).

Acreditamos que, para seguirmos Investindo Certo, o foco não pode ser apenas nos ganhos e muito menos na busca por resultados rápidos. Um/a investidor/a de sucesso é quem consegue buscar bons resultados sem exceder as preferências de risco, que consegue identificar e planejar objetivos, manter a disciplina, consumir e investir sem ignorar o impacto – positivo ou negativo – que essas ações terão no mundo a nossa volta. Com ou sem as ferramentas da renda variável.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *