Por que aprender a poupar dinheiro é mais importante do que aprender a investir?
Muitas pessoas acreditam que a parte mais importante para começar a adquirir controle sobre as finanças pessoas é começar a estudar sobre investimentos: onde aplicar seu dinheiro, como funcionam títulos de renda fixa e renda variável, fundos de investimento…
Acontece, no entanto, que essa deveria ser a última parte da sua formação. Afinal, deixe-me lhe perguntar uma coisa: de que adianta entender tudo sobre investimentos, se você não tem dinheiro para investir e estiver sempre tendo que pagar dívidas antigas?
Isso é algo que acontece com muitas pessoas, em grande parte porque corretoras e vendedores/as de curso, além de influenciadores/as querem logo é que você gaste seu dinheiro com corretagem, sem se preocupar muito com a sustentabilidade desse processo. Afinal, nesses casos, o lucro é obtido na sua aplicação inicial e não da permanência dos fundos ou dos ganhos que você tem sobre eles ao longo do tempo.
Por isso mesmo, é tão comum baterem na tecla de que é poupar pouco e investir muito em ativos de maior risco, do que poupar mais e investir em ativos de menor risco, sendo que os dois caminhos levam ao mesmo lugar – embora o segundo seja muito mais próximo da realidade da população brasileira.
A grande questão dos investimentos é que eles servem para, de um lado, nos prover ganhos sobre o montante que temos reservado e, de outro lado, fazer com que esse valor chegue a quem está precisando dele para empreender ou consumir, girando a roda da economia.
Além disso, como o mercado financeiro é dominado por pessoas bem abastadas, que focam em acumular cada vez mais, fica fácil esquecer que essas pessoas são uma minoria minúscula da nossa população. Isto significa que normalmente acabam defendendo aquilo que faz sentido para elas, sem terem a mínima ideia de como é a realidade do nosso país.
Por exemplo, muitas dessas pessoas criticam os/as mais pobres por escolherem consumir ao invés de investir, mas não sabem como é ter o acesso negado a itens básicos de consumo: roupas, eletrônicos, livros.
Economizar, poupar, investir
A primeira coisa que precisamos entender é que existe uma diferença muito grande entre três termos que são usados como equivalentes: economizar, poupar e investir.
Ao compreendermos essa diferença, seremos capazes de entender melhor como cada um desses conceitos se aplicam ao nosso dia-a-dia e a nossa jornada no mundo das finanças pessoais. Comecemos então pelo mais fundamental, que é a ideia de “economizar”.
A palavra economia, como tantas outras, tem origem no grego, onde significava algo como “administração correta da casa”. Correta em que sentido? Naquele de os recursos da casa, fazenda, propriedade rural, enfim, eram utilizados da melhor forma possível, daí que a palavra “economizar” seja associada com a ideia de não desperdiçar, de não gastar de forma leviana, etc.
Com isso em mente, podemos avançar para o sentido mais contemporâneo de Economia: o estudo das escolhas feitas entre usos excludentes de determinado recurso escasso.
Mais uma vez, vamos usar um exemplo para explicar melhor esse conceito. Digamos que o recurso em questão seja uma quantia em dinheiro. Esse dinheiro não é infinito, ele é escasso: existe um limite nessa quantidade, por maior ou menor que seja.
Por isso mesmo, você precisará escolher onde e como irá gastá-lo, entendendo que escolher um uso implica em abrir mão de outros usos para o mesmo valor: se você comprar um quilo de carne de primeira, esse dinheiro não poderá ser usado para comprar feijão, ou pagar a conta de luz, etc.
A Economia se ocupa de estudar questões como essa, só que de forma bastante ampla, indo da administração dos recursos da casa até o das grandes empresas ou governos, para oferecer respostas sobre as vantagens e desvantagens de cada uso. Economizar, então, é avaliar para onde os seus recursos estão indo e se esse é o uso ideal para eles, segundo nossas circunstâncias e objetivos.
Logo, quanto menos escassos (ou mais abundantes) os recursos, menos dramática é a necessidade de economizar: se você tem muito dinheiro, não precisa fazer escolhas do tipo comprar comida ou medicamentos, ou o proverbial “vender o almoço para comprar a janta”.
Com isso em mente, fica fácil compreender como economizar nos ajuda a poupar: avaliamos se há gastos que podem ser eliminados para que certa porção dos nossos recursos seja poupado de ser usado.
Na medida em que conseguimos fazer isso, dadas as condições de cada pessoa, começamos a ter uma reserva que pode ser usada em emergências, para atenuar a economia que temos de fazer ou simplesmente para ampliar nossas opções de consumo ao longo do tempo – irmos a um restaurante melhor, comprar um celular novo, roupas melhores, etc.
Investir, por fim, é simplesmente uma forma de otimizar o uso dos recursos que poupamos, fazendo com que eles gerem mais recursos para serem acumulados. Vamos ilustrar essa ideia, imaginando que tenhamos uma reserva de R$10 mil reais na poupança do banco.
Esse valor não fica “parado”, ele gera um pequeno retorno e é utilizado para financiar outras atividades (empreendimentos habitacionais, principalmente), ainda que esteja disponível para saque imediato (com limites pré-definidos).
Na prática, esse valor está então investido, ainda que com um retorno baixo atualmente (é bom notar que, de 2011 a 2021, a poupança rendeu mais que a bolsa brasileira, por exemplo).
Ainda que não tenhamos pretensão de ganhar altos retornos com nossos investimentos, é importante lembrar que como os preços tendem a aumentar ao longo do tempo (inflação), precisamos tentar ao menos acompanhar essa variação para que os recursos que poupamos não diminuam. Em cinco anos, os mesmos R$10 mil não compram mais a mesma quantidade do mesmo produto.
Ao investirmos esse valor, temos uma variedade de opções, nas quais iremos ajudar a financiar alguma coisa, em troco de um retorno ao longo do tempo.
Daí que utilizamos o termo “mercado financeiro”, porque é literalmente um mercado no qual podemos “comprar ou vender” financiamentos: um empréstimo (renda fixa), participação numa empresa (ação), um contrato de compra ou venda (futuros), etc.
Daí também que a economia esteja atrelada ao mercado financeiro, porque ela irá estudar as melhores escolhas para que os recursos poupados sejam usados para gerar mais recursos para quem investe.
Dessa forma, pode apontar, digamos, quando e em que quantidade uma pessoa deveria investir em ações, renda fixa, fundos, etc., de modo que os seus recursos ofereçam o melhor retorno dentro de uma medida definida de risco, que vai da mais baixa a mais arrojada.
A importância de poupar
Com essas coisas em mente, podemos ver que entre economizar, poupar e investir, o fundamental é poupar. Bem ou mal, você sempre estará economizando, porque seus recursos são limitados e investir só será possível se tiver recursos poupados.
Apesar de simples, esse entendimento é bastante poderoso, pois deixa claro que o caminho para encontrar a prosperidade financeira não tem a ver com investir, mas sim com sua capacidade de acumular recursos.
Isso é algo que, infelizmente, muitas pessoas não entendem, e corretoras, agências de investimento, entre outras instituições financeiras, fazem questão de dissimular essa informação.
O resultado disso é que muita gente acaba tentando compensar o pouco que consegue poupar com retornos que são fora da realidade – pense nas promessas oferecidas por cursos de day trade e afins – sem entender que é muito mais provável perderem o pouco que tem do que efetivamente conseguir ampliar o patrimônio.
Investir é, sim, uma forma de acelerar as coisas, quando feito da maneira certa: com riscos controlados, sabendo muito bem onde está colocando seu dinheiro e trabalhando com pessoas, ou instituições, de confiança e comprovada competência.
No entanto, o que vai realmente te permitir melhorar de vida é cortar onde for possível, se for possível, para poder ir crescendo um pouco mês a mês. Mesmo que seja pouco, com R$50 ou R$100, é a forma mais certeira de conseguir acumular patrimônio e então, aos poucos, ir ganhando em cima do que você juntou.

Gostei desse texto. Vou começar a poupar de forma mais inteligente. Obrigada 🙂