Entenda como a alta da Selic impacta o rendimento dos títulos pré e pós-fixados

Embora muitas pessoas saibam que a Selic, que é nossa taxa básica de juros, afeta todos os investimentos que fazemos na renda fixa, muitas não sabem ao certo como ou por que isso acontece.

Além disso, é bom lembrar que esse impacto vai mudar conforme o título seja pré-fixado ou pós-fixado. Vamos deixar de lado, por um momento, a quantidade de tipos de títulos de renda fixa que existem por aí (aquele amontoado de siglas como CDB, LCI, etc…) e focar apenas nesses dois tipos de investimento, para facilitar seu entendimento.

Comecemos por relembrar o que é a Selic: trata-se de quanto você recebe por emprestar seu dinheiro ao Governo Federal, que é quem tem o maior crédito dentro de uma economia, justamente por ter o poder de imprimir mais dinheiro quando necessário.

Por isso mesmo, ele é usado como referência para todos os outros empréstimos: se o governo paga X, então todos/as os/as demais participantes do mercado devem pagar um pouco mais do que isso, porque o risco envolvido, mesmo que muito pequeno, ainda é maior do que emprestar para o próprio país.

Uma série de fatores tem impacto na taxa de juros de um país, e no caso do Brasil, não é diferente: questões como o câmbio, a inflação e, principalmente, a política econômico-monetária do governo tem grande impacto sobre esse valor.

Recentemente, a Selic atingiu sua mínima história em 2% e foi elevada, em março de 2021, para 2.75% ao ano. Isso significa que se você investia num título que rendia o equivalente a Selic, ou que era atrelado ao CDI, ele ganhou um gás no rendimento. Por outro lado, títulos pré-fixados, como o Tesouro IPCA, perderam com essa mudança.

Por que isso aconteceu? Para entender, precisamos compreender como são calculados os rendimentos desses títulos.

Comecemos com o mais simples, que são os títulos pós-fixados: esse nome é dado para aqueles no qual não sabemos qual será o rendimento final, que só será definido após um período definido. No caso, se você comprar um título do tesouro pós-fixado, estará investindo na variação da taxa Selic nesse tempo.

Portanto, se você comprou e essa taxa começou a subir, você receberá mais do que o previsto, e se ela cair, terá pago por um título que, no vencimento, vale menos do que no momento da compra – lembrando que o retorno é só um dos fatores a se levar em conta.

Diferente dos títulos pós-fixados, no caso de títulos pré-fixados nós sabemos exatamente quanto iremos receber no vencimento do título, e é muito importante que você entenda que irá receber exatamente esse valor somente se o mantiver até o vencimento.

Isto ocorre por causa do modo como títulos pré-fixados são precificados. Quando você adquire um título pré-fixado, estará pagando um valor descontado do valor de face, que será pago a você na data do vencimento. Como assim, você pergunta? Vamos usar um exemplo para simplificar.

Digamos que, hoje, eu te vendo uma nota de R$100 por R$50, mas essa ela só irá poder ser usada daqui a cinco anos. Se você guardar a nota por cinco anos, terá ganho algo em torno de 10% ao ano, por cinco anos. Isto é, logo de cara você sabia quanto receberia no fim do período, então nosso contrato seria pré-fixado.

Entretanto, digamos que, no dia seguinte, eu vendo uma mesma nota de R$100 a um preço de R$40, com as mesmas condições. O que acontece com seu rendimento?

Na prática, nada, contanto que você guarde o título pelo período combinado. Entretanto, se você precisar se desfazer do título antes desse momento, precisará vende-lo por um preço menor que pagou, porque o padrão agora é que esse mesmo título pode ser comprado por R$40.

Logo, precisará acatar esse prejuízo. É o que acontece quando, por exemplo, a taxa Selic sobe: os títulos que foram comprados com uma Selic mais baixa se tornam mais caros em relação aos que estão sendo emitidos agora.

A razão disso é que o rendimento de um título pré-fixado é o rendimento futuro descontado do valor de face. Então aquela nota de R$100 custava R$50 porque isso equivale ao valor de face de (R$100) menos 10% ao ano (R$10 por cinco anos).

Se o juro sobe, o preço do título é menor porque o rendimento é maior: paga-se R$40 para receber R$12 por ano, que em cinco anos seriam equivalentes aos mesmos R$100. Parece confuso, mas quando você para e pensa, faz sentido.

No caso do título pós-fixado, o rendimento é que será variável, pois não sabemos como a Selic irá se comportar no futuro.

No título pré-fixado, sabemos qual será o rendimento, mas não sabemos o preço futuro do título, que será o componente variável e que representa o risco desse investimento, mas também é o que permite que ele seja potencialmente mais rentável.

Afinal, se os juros caem, o preço do título sobe, e podemos antecipar o resgate, ou vende-lo no vencimento por preço mais alto que pagamos.

Risco e retorno dos títulos

Uma vez que compreendemos como funcionam os diferentes títulos, e como eles são afetados pela Selic, podemos começar a entender melhor os potenciais riscos e retornos de cada um deles. Vamos, mais uma vez, começar pelos títulos pós-fixados.

Como tem um retorno mais estável, são indicados, primeiramente, para compor sua reserva de emergência ou para compor caixa livre, visto que seu resgaste é bem rápido, sem risco de grandes perdas no curto prazo. Por isso, também não geram retornos muito expressivos de longo prazo.

No caso dos pré-fixados, as coisas se tornam um pouco mais complicadas, visto que a forma como são precificados abre a possibilidade para especulação de curto ou médio prazo, algo que não é recomendável para investidores/as de primeira viagem.

Embora gerem retornos mais expressivos no longo prazo, em períodos mais curtos o seu preço pode variar de forma bem intensa, inclusive gerando retornos negativos no mês. Por isso mesmo, o ideal é que você invista apenas quantias que poderão ficar aplicadas lá por prazos mais longos, em geral acima de cinco anos.

O lado bom é que a forma como esses investimentos são remunerados os tornam bem mais interessantes caso você possa assumir o risco envolvido.

Por exemplo, títulos atrelados ao IPCA, que é a medida oficial da inflação e considera a mudança nos preços de uma cesta bem diversa de bens/serviços, são uma garantia de ganhos reais, isto é, que efetivamente ampliam seu patrimônio ao invés de simplesmente preservá-lo contra desvalorização.

Para investir nesses títulos, você pode utilizar o Tesouro Direto ou fazer suas aplicações via corretora, sendo esta última a única que tem permissão para distribuir títulos privados. Mas não é a única forma.

Um caminho muito popular para mitigar os riscos e ampliar o retorno é investir em fundos de renda fixa, que nada mais são do que “empresas” que existem com o propósito único de extrair o melhor de cada classe de ativos, sejam eles pré ou pós-fixados, ou diferentes proporções entre ambos.

Obviamente, existe um custo envolvido nesse processo, que é o que chamamos de taxa de administração, que varia conforme o fundo de investimento.

No caso da renda fixa, costuma ser algo em torno de 0.25% a 1%, dependendo do quão ativa é a gestão do fundo, seu tempo de funcionamento, tamanho da equipe de gestão… Embora todas as corretoras ofereçam uma variedade de fundos, algumas terão mais opções do que outras, então vale a pena fazer uma pesquisa mais aprofundada antes de abrir sua conta.

Se quiser saber mais sobre fundos de investimento, nós preparamos um texto que discute um pouco mais a fundo como funcionam, suas vantagens e desvantagens, etc. Confira neste link!

Qual a melhor opção?

Como vimos, tudo depende dos seus objetivos, perfil de investimento, tolerância ao risco, entre outros fatores. No momento em que escrevemos esse texto, 24 de março de 2021, acabamos de ver um reajuste da taxa Selic, com o Banco Central indicando que provavelmente passaremos de um ciclo de baixa (quedas consecutivas da taxa de juros) para um ciclo de alta, com títulos atrelados à Selic tendendo a ganharem mais força no futuro, caso esse cenário se confirme.

Por outro lado, títulos pré-fixados com duração mais longa continuam sendo uma ótima opção para quem tem perspectiva de ganhos a longo prazo, ou para quem quer começar a aumentar pouco a pouco a exposição ao risco.

 

2 thoughts on “Entenda como a alta da Selic impacta o rendimento dos títulos pré e pós-fixados

  • 30 de março de 2021 em 13:44
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    Ótimo texto!!! Obrigada pelas informações

    Resposta

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